Me distraio demais
Não presto atenção em mim
Meu tempo desafina
Perco o meu lugar
Outro dia
Olhando o lago
Nadava junto aos cisnes
Escritos, Poesias, contos e outras mentiras deslavadas.
Me distraio demais
Não presto atenção em mim
Meu tempo desafina
Perco o meu lugar
Outro dia
Olhando o lago
Nadava junto aos cisnes
Quando criança,
eu corria muito
Ganhava de qualquer um
Admiravam-se com minha inquietude
A todos surpreendia com minha vitalidade
Alegravam-se ao me ver
Ninguém imaginava
Quando dei por mim
Estava no meio de um verso
agonizante
em uma ponte vaporosa
Segurava uma palavra frágil pela mão
larguei-a lá de cima
achando que pudesse matá-la
Poema único (o original)
Sou único
Irrepetível
Inigualável
Não tenho sombra
Não tenho cópia
Não partilho idéias
Pra não me dividir
Sou o original
Serei sempre o primeiro
E único
Poema único (o original)
Sou único
Irrepetível
Inigualável
Não tenho sombra
Não tenho cópia
Não partilho idéias
Pra não me dividir
Sou o original
Serei sempre o primeiro
Dizem que meus versos
Não têm poesia
Que dão azia
Que são o retrato
De uma alma vazia
Que o estilo não me socorre,
E recorro à rima pobre
E que, coisa tétrica,
Nunca ouvi falar em métrica
Dizem
Que minha obra
Não fala de nada
Não diz coisa alguma
Não comove ninguém
Que não é política
E nem social
Falta autocrítica
E beira o boçal
Que suprimo a verdade
de tudo o que escrevo
que sobra vaidade
e só gera desprezo
Dizem
Que me falta
O dom para o ofício
Falta a dor,
O sacrifício
Quero te dar uma ilha deserta
Do meu arquipélago
Bem ao lado da minha
Nadar sem roupa
Pela manhã
Trazendo uma onda pra te acordar
Sumir contigo
N’areia branca
Me perco
No redomoinho
E acabo dentro
Evitando a lua
Volto com a maré
Pra te ver de longe
Sozinha.
Dormindo.
Num sonho.
No escuro
Uma única luz azul
Um barco partindo
Para sempre
Ela habitava uma montanha dourada...
Andando na neve, vento nos cabelos,
jogo de claro-escuro.
Seus braços,
oásis na minha solidão.
Olhos fechados,
trilhas de serpente na areia.
Abertos,
Redemoinhos silenciosos
A pele,
pluma azul pairando sobre o mar.
Os ombros,
delicadas dunas ao luar.
Não se move,
se deixa levar pelo vento.
Não dorme,
é a morada dos sonhos.
Veio do oriente
Só para me ver
A princesa do sol nascente
Caminho num sábado à noite. Já comecei cansado. O dia foi muito quente e abafado, e a noite pareceria ainda pior não fossem as nuvens agitadas prenunciando a chuva. Depois de andar por várias quadras, volto a sentir a maldita dor nas costas. Apenas a idéia de seguir adiante já se revela uma tortura. Só mais 500 passos e volto, prometo a mim mesmo.
De longe, ouço uma música. Numa janela aberta uma mulher loira de roupa preta justa faz com o corpo movimentos ritmados suaves e sensuais sob a luz de uma tv e de uma tosca árvore de natal repleta de lampadinhas piscantes coloridas. Sinto um pingo. No mesmo aposento, ignorando a cena, um homem grande sem camisa come avidamente de um prato sobre a mesa. Mais adiante, noutra casa, uma família senta-se à beira da movimentada avenida para apreciar não sei o quê. Olho para baixo. Meus tênis pintados velhos remendados. Sobre a grama, uma carta de baralho virada para baixo. É um rei de copas. À minha esquerda, cavalos correm e pulam. Só mais 150. Sinto mais pingos. A chuva começa. Decido voltar.
Piso no asfalto e o sinal abre para os carros. Sigo adiante, sou atropelado e quebro as pernas. Mas só na minha cabeça, então retorno à calçada. Um casal de namorados passa. Ele sorri e gesticula; ela está séria e caminha firme. Escuto ela dizer “...e tu pára de me chamar de meu.” A chuva fica mais forte. As solas dos meus pés doem. Cavalos descansam. Rei de copas molhado. Cadeiras vazias. Janela fechada. Fico com a chuva só pra mim. Meus joelhos doem. Contrariando o objetivo do exercício, me sinto mais pesado ao voltar pra casa.
