Sexta-feira

Me distraio

Me distraio demais

Não presto atenção em mim

Meu tempo desafina

Perco o meu lugar

Outro dia

Olhando o lago

Nadava junto aos cisnes

Pensando que fosse um pato



Terça-feira

Ela (2)


Ela era muito assídua.

Nunca deixava de comparecer

Aos nossos desencontros


Segunda-feira

Pena


Foi condenada ao oblívio perpétuo

Mas de vez em quando escapa

E volta a me assombrar

Sexta-feira

Terça-feira

Ando assim

ando assim

meio morto

meio vivo

existência que não merece

Meia página de um livro

Ainda tem


Quando criança,


eu corria muito


Ganhava de qualquer um


Admiravam-se com minha inquietude


A todos surpreendia com minha vitalidade


Alegravam-se ao me ver


Ninguém imaginava


que havia um demônio atrás de mim

Domingo

a Palavra

A palavra não dita


por um


Sempre aparece


com mais força na boca de outro

Quinta-feira

My Way

Acordo sem fé


Devagar


Numa segunda-feira


Não fujo do lugar-comum


Mas sofro


À minha maneira

Piada sem graça

Piada sem graça


Palhaço dormindo


No banco da praça

Domingo

O Início


Quando dei por mim


Estava no meio de um verso


agonizante


em uma ponte vaporosa


Segurava uma palavra frágil pela mão


larguei-a lá de cima


achando que pudesse matá-la


Nunca mais consegui voltar

Preocupação


Serei herói


ou serei bandido


Quando meu corpo for banido?

Quinta-feira

Poema Único (o original)

Poema único (o original)

Sou único

Irrepetível

Inigualável

Não tenho sombra

Não tenho cópia

Não partilho idéias

Pra não me dividir

Sou o original

Serei sempre o primeiro

E único


Poema único (o original)

Sou único

Irrepetível

Inigualável

Não tenho sombra

Não tenho cópia

Não partilho idéias

Pra não me dividir

Sou o original

Serei sempre o primeiro

E único


Domingo

O que dizem

Dizem que meus versos

Não têm poesia

Que dão azia

Que são o retrato

De uma alma vazia


Que o estilo não me socorre,

E recorro à rima pobre

E que, coisa tétrica,

Nunca ouvi falar em métrica


Dizem

Que minha obra

Não fala de nada

Não diz coisa alguma

Não comove ninguém


Que não é política

E nem social

Falta autocrítica

E beira o boçal


Que suprimo a verdade

de tudo o que escrevo

que sobra vaidade

e só gera desprezo


Dizem

Que me falta

O dom para o ofício

Falta a dor,

O sacrifício

Uma palavra

Uma palavra me devasta

repito a palavra

repito a palavra

repito

até cansá-la de mim

Segunda-feira

Ilha

Quero te dar uma ilha deserta

Do meu arquipélago

Bem ao lado da minha


Nadar sem roupa

Pela manhã

Trazendo uma onda pra te acordar


Sumir contigo

N’areia branca


Me perco

No redomoinho

E acabo dentro

Dos teus olhos

Evitando a lua

Volto com a maré

Pra te ver de longe

Sozinha.

Dormindo.

Num sonho.


No escuro

Uma única luz azul

Um barco partindo

Para sempre

Montanha Dourada

Ela habitava uma montanha dourada...

Andando na neve, vento nos cabelos,

jogo de claro-escuro.

Seus braços,

oásis na minha solidão.

Olhos fechados,

trilhas de serpente na areia.

Abertos,

Redemoinhos silenciosos

A pele,

pluma azul pairando sobre o mar.

Os ombros,

delicadas dunas ao luar.


Não se move,

se deixa levar pelo vento.

Não dorme,

é a morada dos sonhos.


Veio do oriente

Só para me ver

A princesa do sol nascente

Iluminando o meu ser

Sábado

Caminhando

Caminho num sábado à noite. Já comecei cansado. O dia foi muito quente e abafado, e a noite pareceria ainda pior não fossem as nuvens agitadas prenunciando a chuva. Depois de andar por várias quadras, volto a sentir a maldita dor nas costas. Apenas a idéia de seguir adiante já se revela uma tortura. Só mais 500 passos e volto, prometo a mim mesmo.


De longe, ouço uma música. Numa janela aberta uma mulher loira de roupa preta justa faz com o corpo movimentos ritmados suaves e sensuais sob a luz de uma tv e de uma tosca árvore de natal repleta de lampadinhas piscantes coloridas. Sinto um pingo. No mesmo aposento, ignorando a cena, um homem grande sem camisa come avidamente de um prato sobre a mesa. Mais adiante, noutra casa, uma família senta-se à beira da movimentada avenida para apreciar não sei o quê. Olho para baixo. Meus tênis pintados velhos remendados. Sobre a grama, uma carta de baralho virada para baixo. É um rei de copas. À minha esquerda, cavalos correm e pulam. Só mais 150. Sinto mais pingos. A chuva começa. Decido voltar.


Piso no asfalto e o sinal abre para os carros. Sigo adiante, sou atropelado e quebro as pernas. Mas só na minha cabeça, então retorno à calçada. Um casal de namorados passa. Ele sorri e gesticula; ela está séria e caminha firme. Escuto ela dizer “...e tu pára de me chamar de meu.” A chuva fica mais forte. As solas dos meus pés doem. Cavalos descansam. Rei de copas molhado. Cadeiras vazias. Janela fechada. Fico com a chuva só pra mim. Meus joelhos doem. Contrariando o objetivo do exercício, me sinto mais pesado ao voltar pra casa.

Quinta-feira

A última sessão de cinema

Ontem à noite realizei um sonho.

Não vivo sem cinema. O filme ao qual queria assistir estava passando em apenas uma sala da cidade, em uma única sessão, à noite. Era num cinema aonde não ia há seculos. Foi lá que tive a minha primeira experiência cinematográfica, que mudou minha relação com o mundo (mesmo que tenha percebido isso muito tempo depois). Eu tinha uns cinco anos e fiquei embasbacado quando apagaram a luz e projetaram as imagens na tela. Centenas de filmes depois, minha capacidade de espanto foi esmorecendo, e só se manifesta e cada vez mais raras ocasiões. Mas isso é outra história, estava falando de ontem.

Ao entrar na sala, me surpreendi: estava quase igual à que conheci quando criança, poltronas largase baixas, estofadas de courino, bem diferente das assépticas e despersonalizadas salas de hoje em dia. Lembrei que tinha um sonho de um dia ter uma sala de cinema em casa, e que ela seria no mesmo estilo do charme retrô daquele onde estava. Fiquei lendo um livro, sentado na quarta fileira, bem à esquerda. (Numa sala de cinema, sempre me posiciono não em relação à tela, mas em relação aos outros: prefiro ficar longe de todos sempre.) Percebi que a sessão já estava atrasada mais de 10 minutos e as luzes continuavam acesas. Finalmente a projeção começou.

Depois de uns 15 minutos de filme, olhei ao meu redor e finalmente percebi: não havia mais ninguém, estava sozinho na sala. Sempre torci para um dia ser um espectador solitário, ter o cinema só pra mim, o meu cinema, mesmo que por duas horas. Pensei no ciclo: estava no mesmo lugar da minha primeira sessão e da última (até o momento). Logo me veio à memória a minha primeira sessão, e comecei a pensar nos meus desejos e sonhos de infância, e em todas as frustrações que acumulei durante os 25 anos seguintes; e em todas a minha história pessoal relacionada ao hábito de ir ao cinema: as relações familiares, o sentimento de autonomia ao poder ler as legendas dos filmes estrangeiros, os primeiros amores. O filme na tela não era triste, mas um nó começou a apertar a minha garganta.

Quando começaram a subir os créditos do filme, as luzes não acenderam. (sempre odiei a insensibilidade da luz acesa, que quebra qualquer encanto, como se fosse uma lanterna de realidade na cara, chamando para o mundo.) Os créditos foram até o fim, até que o rolo de filme terminasse e a tela ficasse branca, e estranhamente nenhuma luz foi acesa na sala. Caminhei cuidadoso até a saída, e o saguão estava vazio: a moça da bomboniére se fora, o bilheteiro não estava lá, ninguém para interromper o filme que ainda estava dentro de mim.

Fui para casa a pé, e no caminho, a muito custo, desatei o nó.

Quarta-feira

Lavoisier

Na natureza nada se cria

.................. nada se perde

.................. tudo se transforma



Afinal, que fim levou o teu amor?